Tabela de preço para matar 

Por (Sandra Kiefer/Redação EM) 29/06/2003 às 14:22

http://www.midiaindependente.org/

 

Fazendeiros do Pontal do Triângulo estão pegando em armas para demarcar, por sua própria conta e risco, os limites da reforma agrária na região. A um estalar de dedos, é possível formar milícia armada de 30 a 100 jagunços, contratados para limpar a área ou seja, expulsar os sem-terra das fazendas já ocupadas ou até aplicar corretivo para desestimular novas invasões. Matar um invasor custa R$ 500 por cabeça.

Dar tiros de metralhadora rente aos acampamentos, atear fogo às barracas de lona e fazer sucessivas ameaças de morte são algumas das estratégias detectadas nos boletins de ocorrência registrados pela 10ª Companhia Independente de Polícia Militar de Ituiutaba. De acordo com um fazendeiro, que mantém escritório no centro de Ituiutaba, a maior cidade do Pontal do Triângulo, a contratação dos serviços de segurança de um pistoleiro custa R$ 50 por dia.

Nem sempre eles são homens treinados para matar. Boa parte está estreando agora na profissão, que paga quase seis vezes mais do que pegar na enxada. O trabalhador comum ganha R$ 8, em média, no roçado de cana. Matar custa mais caro. A empreitada sai a R$ 500.

O pacote inclui retirar os sem-terra das fazendas e dar um susto para que eles desistam de voltar ao local. Até agora, sem deixar rastro. Nenhuma morte de sem-terra foi registrada nos boletins policiais.

Tem de ser um serviço bem-feito para bater bastante nesses vagabundos, mas tomando cuidado para não morrer ninguém. A hora em que surgir um mártir vai ser ruim para todo mundo", afirma o fazendeiro.
 

Incra
 

É voz corrente entre os produtores rurais de que a violência cresceu na região porque o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estaria fazendo vistas grossas à invasão de propriedades. Isso é atribuído à vingança pessoal do próprio Marcelo Resende, presidente nacional do instituto. Há três anos, ele e Frei Rodrigo, representantes da Pastoral da Terra, foram espancados por um fazendeiro. Resende quase morreu e saiu fugido da cidade.

A reportagem do ESTADO DE MINAS conversou com o autor das agressões, que está solto e continua tocando sua fazenda normalmente. Eles (Marcelo Resende e Frei Rodrigo) eram agitadores e traziam o povo para invadir as fazendas em Santa Vitória. Acabaram tomando um corretivo , resume. O fazendeiro diz ter dispensado a guarda dos jagunços, pois não dá conta de pagar cinco pessoas ao custo diário de R$ 150. No final do mês, as despesas somam R$ 6 mil, quantia suficiente para comprar seis cabeças de gado de boa qualidade. Suas propriedades, situadas na valorizada terra roxa do Triângulo, são avaliadas em R$ 4 milhões.

Marcelo Resende foi procurado, mas sua assessoria mandou avisar que ele nunca comenta esse assunto. Fato é que o espancamento deixou marcas na população de Santa Vitória, seja inspirando coragem aos sem-terra quanto a revanche dos fazendeiros. Atualmente, o município encampa mais da metade dos conflitos entre sem-terra e fazendeiros registrados em todo o Pontal do Triângulo.

Como se fabrica um pistoleiro

 

Eduardo Mamcasz  - Clipping | 04/02/2004

http://www.brasiloeste.com.br/noticia/876/

 

Agência Brasil - “A história da pistolagem no País se confunde com a história da “elite” brasileira - afirma a socióloga Peregrina Cavalcante, autora do livro Como se Fabrica um Pistoleiro, da editora A Girafa (SP), 254 páginas. A obra é resultado de dois anos e meio de pesquisas no interior do Maranhão, Piauí e Ceará. A professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará precisou morar junto às comunidades onde existem pistoleiros para “sentir como as pessoas convivem com o fato e como se dão os crimes”. E foi com muito custo que ela ganhou a confiança para realizar o trabalho.

No livro, ela relata as “confissões” feitas por um padre e um juiz, ameaçados de morte, conta histórias de pistoleiros em ação e até de um delegado de polícia que conseguiu a façanha de levar um desses assassinos de aluguel a ser condenado. O delegado, que não quis identificar-se, classifica o “matador de gente” como uma pessoa “perigosa, traiçoeira, astuta e covarde”. O pistoleiro Miranda confirma no livro a frieza dos profissionais do ramo: “A gente vai é prá matar, não é prá brigar”, diz ele.

Ela explicou que a “exportação” e o intercâmbio de pistoleiros são prática comum, até por uma “questão de segurança para os envolvidos no processo”, a socióloga Peregrina Cavalcante conta que a profissão de “matador de gente” começa cedo. “Garotos, moradores das fazendas, desde muito jovens, aos 15 anos de idade, começam a treinar para se tornarem pistoleiros”.
 

O matador de gente
 

Para a professora a imagem do pistoleiro, foi sendo construído historicamente, desde quando o Brasil foi colonizado, por exemplo, por meio do extermínio brutal dos índios. Ao falar dos tempos em que conviveu com os assassinos para escrever os livros e a tese, no Vale do Jaguaribe, Ceará , região famosa por ser uma “grande exportadora de pistoleiros”. Peregrina lembra que no local existe o chamado Riacho do Sangue, trágica lembrança de uma carnificina de indígenas.

Segundo ela, as comunidades que convivem com a “incômoda permanência” dos pistoleiros adaptaram-se à esta realidade. “Mesmo que os pistoleiros incomodem, que a convivência com eles seja uma coisa assustadora, a comunidade, na verdade, convive com a cultura da pistolagem. A cultura desses lugares é a de que todas as pessoas andem armadas. Um menino de 15 anos, por exemplo, geralmente passa pelo ritual em que o pai o presenteia com uma arma. De modo que, desde criança, ela é motivada ao uso da arma”, relata a socióloga.

Peregrina Cavalcante explica ainda que entender o papel da mulher na continuação da cultura da pistolagem foi muito importante para ela chegar a uma conclusão nos seus dois livros - “Matadores de Gente” e “Como se fabrica um Pistoleiro”. “A mulher é uma formadora de gente, ainda mais no caso da mãe que fala ao filho, por exemplo, que não volte para casa desonrado, depois de uma briga. Ela cria, assim, uma mentalidade errônea de honra e de família que não pode ser maculada e, se for, tem que ser respondida à altura”.

No livro, a socióloga faz um traço dos três tipos diferentes de pistoleiros – o tradicional, ligado a um dono; o bandido, com “práticas marginais múltiplas”, e o avulso, que é nômade e necessita do intermediário. Entre os três tipos, a autora diz que encontra um traço em comum, que é o fato deles todos “matarem por dinheiro e por vingança”. Peregrina cita as conclusões de um velho delegado de polícia que já conseguiu prender alguns pistoleiros na cadeia, que acabaram condenados, fato considerado raro. O delegado resume: “ A impunidade é a responsável pela permanência da pistolagem no país”.

Para o delegado, a impunidade ainda existe no Brasil do interior porque, geralmente, “o patrão do pistoleiro é influente na política regional , tanto que, logo após o assassinato, o pistoleiro é transferido por ele para outro Estado, de onde lhe é enviado, em troca, um pistoleiro novo, numa verdadeira rede do crime”.

Peregrina identificou, ainda, outro ponto em comum entre os pistoleiros. Em geral, o matador de gente é religioso, usa uma medalha milagrosa, geralmente de São Francisco das Chagas do Canindé, para manter o corpo “fechado”. Um pistoleiro famoso dá, no livro de Pelgrina, uma receita para manter o corpo fechado: começa por enterrar um gato vivo, com certos ingredientes para, dias depois, já apodrecidos, serem comidos acompanhados de uma oração.

No seu livro, a socióloga colhe o depoimento de um Juiz do interior, que lhe diz: “a pistolagem está entranhada na vida cotidiana das pessoas, das famílias e dos que ocupam os espaços do Poder, tanto que é comum , na minha frente, apresentarem seus empregados como sendo seguranças, de total confiança, quando destacam, com orgulho e abertamente, o detalhe do se eu mandar matar, ele mata.”

Outro personagem importante ouvido no “Como se fabrica um pistoleiro” é um padre do interior. Peregrina Cavalcante o chama de “pára-raio de todos os acontecimentos, embora não tome partido, até porque na hora da morte ele é o primeiro a ser chamado”. Padre José, 30 anos no Vale do Jaguaribe, Ceará, diz que “ hoje, não são apenas os fazendeiros os principais articuladores da pistolagem . Outros articuladores entraram em cena : empresários, prefeitos, deputados, secretários de Estado, etc”

O pistoleiro Miranda, ouvido no livro, resume o perfil psicológico do matador de aluguel: “olha, se o patrão chegar para mim e mandar matar o Papa, não me interessa o que o Papa fez, mas o Papa ia morrer”. O mesmo Miranda conta: “antes de atirar, sempre me benzo com a arma para tudo dar certo. Depois do serviço realizado, vou a uma igreja pedir perdão.”
 

O pistoleiro não é o único criminoso
 

“A presença de pistoleiros em fazendas com trabalho escravo infelizmente ainda é um fato e são eles que garantem a permanência dos trabalhadores nessas regiões distantes, na condição de presos, sem receber remuneração”. A afirmação é do Coordenador da Pastoral da Terra em Xinguara, no Sul do Pará, Frei Henry des Roziers, advogado de líderes sindicais rurais ameaçados de morte e também frei dominicano.

Ele já foi “condenado à morte”, mas agora diz que “graças a Deus, não estou mais recebendo ameaças de morte”. Frei Henry falou ao programa “Revista Amazônia”, da Rádio Nacional da Amazônia, sobre a questão da pistolagem no País. O Frei adverte que ainda existem, na região, “muitos líderes sindicais e agentes pastorais que continuam ameaçados de morte por conta do trabalho que desenvolvem a favor do ser humano menos favorecido”.Frei Henry lembra, no entanto, que não só o pistoleiro é o criminoso.

Para ele, “não é só a presença do pistoleiro que caracteriza e permite a permanência do trabalho escravo no Sul do Pará. Existem os fazendeiros reincidentes no trabalho escravo. Eles são infratores e criminosos”. Frei Henry comenta que a reincidência tem sido muito grande, apesar do trabalho que está sendo feito pela fiscalização do Ministério do trabalho. “Tudo bem que já conseguimos ver fazendeiro preso, devido à fiscalização, mas eles ficam presos por pouco tempo,” desabafa Roziers.

Ele já teve sua atuação elogiada em nota assinada por várias instituições, entre elas a Associação dos Juizes Federais do Brasil, a Organização Internacional do Trabalho e o Movimento dos Direitos Humanos. O frei consegue ter uma explicação, embora lamente, até para o fato de, muitas vezes, os fiscais do Trabalho encontrarem as mesmas pessoas que, pouco tempo antes, tinham sido libertadas de trabalho escravo, em outras fazendas.

Explica que “eles vieram de regiões muito pobres do Maranhão, Piauí e Tocantins, onde perderam suas terras, agora não têm para onde voltar e ainda enfrentam a falta de um emprego onde possam apenas sobreviver” . Por isso, ele acha que o caminho para o fim da violência, no caso do Sul do Pará, onde ele vive há mais de 20 anos, “tem que passar primeiro pelo emprego e depois pela reforma agrária, esta com o acompanhamento técnico e também do crédito para que possam produzir”.

Eduardo Mamcasz

O que passa pela cabeça de alguém que mata
por encomenda?

 

Trip fura o bloqueio e senta cara a cara com a morte

por Rogério Panda

http://www2.uol.com.br/trip/49/matador/matador.htm

 

O repórter disse a senha: "A paz do senhor!"..."Amém", respondeu um estranho. Ele atende por Roberto. Ou melhor, nos permitiu chamá-lo assim. Roberto mata profissionalmente há cinco anos. Cobra até R$20 mil para fazer um serviço bem feito. E mais: acredita ser um anjo enviado à Terra por Deus, para varrer a escória do mundo. E diz nunca se arrepender das mortes que executa. "Só mato bandido, não pai de família", garante o justiceiro.

Ex-policial civil, Roberto perdeu a mulher há seis anos, morta por dois assaltantes dentro de um supermercado. Até hoje, procura os assassinos, e, logicamente, mal pode esperar para farejá-los. Aos 28 anos, tem dois filhos para criar e se recusa a casar - de papel passado - de novo.

Cangaceiro urbano? Matador de aluguel? Anjo da morte? Nada disso. Ele é a própria justiça, acredita. Prende. Julga. E mata. Jura, como a Lei dos homens, que tem sua ética: a de não matar ninguém pelas costas. Também tem seus rituais: olhar nos olhos das vítimas antes de apagá-las, e depois cuspir de nojo em cima de seus corpos. Para encerrar a cerimônia de morte, acalma os nervos com um gole de cachaça.

Homem de sangue frio e personalidade forte, herdada do pai "cabra macho do Norte" que lhe ensinou a nunca levar desaforo para casa, Roberto consegue se emocionar com o acidente que matou os Mamonas Assassinas, mas não sente nada quando apaga alguém. "Todos que matei mereciam morrer", diz. Sua fala é mansa, carregada de um sotaque nordestino cheio de gírias e palavrões. Tem braços robustos, dignos de estivador. Sempre esperando pelo pior, Roberto anda com um 38 de cano serrado amarrado no tornozelo da perna esquerda, para eventuais emergências, como fazem os delegados. Suas ferramentas básicas são outro 38 cano longo e uma pistola 7.65. Se um falhar, ele saca o outro.

Não atira na cabeça, "porque faz muita sujeira". Mata à moda antiga, como se faziam nos filmes de bang-bang, sem frescuras! Esta entrevista rolou num estacionamento de uma cidade no interior de São Paulo. Foram quatro horas de conversa. Durante todo esse tempo, a tensão e a desconfiança foram descontadas em dois maços de Campeão, que Roberto acendia um na bituca do outro. "Em casa, a gente economiza fósforo", ironizou o justiceiro, em um dos poucos momentos de descontração.

 

Antes de matar profissionalmente, você já matava? Por que?

Sim, porque ninguém nasce matando, tudo tem uma iniciação.

Como foi a sua?

Eu trabalhava como policial e matava em nome da lei. È foda, parece loucura. Mas quem não é louco hoje em dia?

A morte de sua mulher influenciou na sua decisão de se tornar um justiceiro?

De forma alguma. Não existe um motivo claro para você se tornar um justiceiro. As coisas acontecem e, quando você percebe, já esta afogado até o pescoço.

Quantos você já matou?

Como justiceiro, 24 pessoas.

Quem são seus clientes e como eles entram em contato?

Em geral são comerciantes. Eles entram em contato através de pessoas. Como você fez...

Você tem uma tabela de preços para seus serviços?

Não existe uma tabela fixa de preço. Depende muito de quem tá querendo o serviço e de quem vou matar. O preço pode ser de R$ 5 mil, que é o mínimo que cobro, até R$ 20 mil.

Você só mata por dinheiro?

Profissionalmente, sim. Mas se um amigo meu entrar numa treta, eu cobro a bronca sem ele precisar pagar nada.

O que acha da polícia?

Justiceiros de fardas. Pelo menos eu cobro pra matar. E só mato bandido. Eles matam o primeiro que aparecer.

Qual é sua relação com a polícia? Não tem medo de ser morto por ele as ou bandidos?

Conheço o pessoal, mas não existe um relacionamento amistoso. Ninguém é amigo de ninguém. Porque, mais dia menos dia, eles podem te foder. O cara que fala que não tem medo é cuzão.

Se você é pego pela polícia, existe acerto?

Claro, tudo tem acerto. Mas se te pegarem por ordem dos grandes da polícia, não tem jeito.

O que acontece com um justiceiro na cadeia é o mesmo que com um estuprador?

O bicho é feio. Não tem dinheiro que te deixe vivo. Mas quando a casa cai e você entrega o serviço (confessa), os policiais, que pagam um pau pra você, te deixam em uma cela separada. È saber usar a malandragem.

Para onde acha que vão as pessoas que você mata?

Para sete palmos debaixo da terra. A alma deve queimar no inferno!

O que sente na hora de matar?

Prazer. Porque todos que matei até hoje mataram, estupraram, prejudicaram alguém e o caralho. Então, eu me sinto um previlegiado do Senhor. Como se fosse um anjo com a missão de livrar o mundo dos pecados.

Então, você se sente um ser superior?

Não. Mas acho que cada um tem sua missão na Terra. Por mais dolorosa que seja, ela tem que ser cumprida.

Onde fica o mandamento do Senhor que diz "não matarás"?

È... Ninguém é perfeito (dá seu primeiro sorriso). Mas se você ver por outro lado, vai ver que eu mato a escória. Então, estou fazendo o bem. Se eu cometer alguma falha com Ele, devo pagar.

Qual é a reação das pessoas na hora da morte?

È nessa hora que o cara mostra que é homem ou não. Muitos ficam com tanto pavor que não conseguem nem se mexer. Outros, mais cachorros, chamam a mãe, Deus e o caralho. Mas tem aqueles, meus preferidos, que olham no seu olho sem falar nada, como que dizendo: "se você não me matar agora, eu te mato filho da puta". Esses são foda, cê não esquece do cara.

Por que você cospe em cima do defunto?

Isso é uma obrigação. Tenho nojo dessa raça.

Pretende parar de matar?
Eu acho que nessa profissão você não pára. Ela pára com você.

Matar se torna um vício?

Sim e não. Depois que você matou o segundo ou o terceiro, você acostuma. È diferente de ser viciado em matar. Me acostumei. Mais um, menos um, não faz diferença.

Você usa armas de grosso calibre, como uma doze ou bereta?

Isso eu deixo pro cinema. Meu trampo é na moita, na calada da noite. Imagina, usar uma doze...

Mata com faca?

Se liga né, meu! Não sou cangaceiro! Eu chego é para matar, não fazer cócegas.

Existe algum "código de ética" em sua profissão?

Não mato pelas costas. Eu tenho que olhar no olho do cara para ele saber quem tá matando ele. Matar pelas costas é covardia.

E matar alguém desarmado, não é covardia também?

Mas aí a história muda de lado, porque eu vim pra matar e não para fazer duelo.

Seus amigos e família sabem o que você faz?

Amigos, só os de profissão. Na família, só uma irmã minha que sabe por alto. Porque se acontecer alguma coisa comigo, ela que vai cuidar dos meus dois filhos.

Já matou menor de idade e mulher?

Não sei! Todos eles aparentavam ser de maior. Mato pilantra, não criança. Mulher, se for vagabunda, morre. Mato o traficante, não quem usa.

Qual é a pior droga?

È você estar com fome e não ter o que comer. E ver um monte de moleque, da idade dos meus filhos, jogado pelas ruas.

Descreva alguns "trabalhos"? Os mais difíceis, na sua opinião.

Eu fui pegar o figura. Ele tinha grana, era um traficante que tinha apagado uns moleques que estavam devendo. Assim que eu olhei no olho dele, o cara me encarou e disse: "Fala quem te mandou me matar, que eu pago o dobro pra você matar ele".

E você, o que fez?

Sapequei o cara na hora, sem dó.

Já foi preso? Quantas vezes?

Fui. Mas não quero falar nada.

Já matou outro justiceiro ou matador?

Justiceiro eu nunca matei. Mas teve um matador que tava apavorando um pessoal. Aí, tive de matá-lo.

Matar é fácil?

È só apertar o gatilho.

Você se acha o fodão?

Acho, porque me garanto.

Leonildo Correa - OCW Br@sil - Direito USP - Mapa do Site

(...) Mas o que ocorreria ao mundo se cada um de nós pudesse exercer, sem censura ou medo, as suas pulsões de vingança, por mais cruéis que elas fossem? Regrediríamos, certamente, ao que os filósofos chamam de "estado de natureza", o suposto estágio que antecede o início deste em que vivemos, e que os filósofos apreciam chamar de "contrato social". Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provoca<>r pruridos anais...

As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios.

(...) E a história não nos desampara neste momento: compulsemos os melhores tratados e veremos que a verdade só triunfa quando escolhe, como aliada, a violência. Os servos só deixaram de ser espoliados quando encostaram a faca na garganta dos seus opressores. Da mesma forma, certamente também nós guardamos a lembrança dos poucos momentos em que ousamos erguer a cabeça e nos revoltamos. Aqueles minutos de prazer, semelhantes em tudo a uma deliciosa sucessão de orgasmos, foram os únicos em que ousamos ser verdadeiros, e são eles, hoje, que nos salvam do completo embotamento. (Konstantin Gravos - Texto Completo)

O sistema vigente é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos ? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros, etc. Vemos e interagimos com as mesmas pessoas que queremos salvar. Contudo, antes de salvá-las, essas pessoas fazem parte do sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema que irão lutar ferozmente para protegê-lo. (Adaptado do Filme Matrix)

Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros - Che Guevara

Quando se faz uma boa ação, há sempre quem a ache má e se queixe, e quando se faz bem a uns, faz-se mal a outros!  August Strindberg

Se o conhecimento não tem dono, então a propriedade intelectual é mais um truque do neoliberalismo. Hugo Chaves