A educação que liberta e a mão que escraviza

Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil

O título deriva do artigo "A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza" publicado no Le Monde Diplomatique:

http://diplo.uol.com.br/2007-10,a1968

A educação pode ser um instrumento de dominação e controle, uma forma de perpetuação de um grupo dominante no poder, um mecanismo de escravidão da coletividade. Assim como todas as coisas, a educação pode ser usada para o bem ou para o mal. Pode ser uma educação que liberta ou uma educação que escraviza. O grande problema é saber quando estamos diante de uma ou diante de outra, pois o principal truque dos grupos dominantes, que usam a educação como instrumento de poder, é esconder nas instituições fundamentais da sociedade mecanismos de dominação, controle e perpetuação do status quo. Isso se aplica a todas as instituições: Direito, Democracia, Judiciário, Legislativo, Universidades Públicas, religião, etc...

Neste texto vou tratar da educação que liberta e da mão que escraviza, ou seja, da mão que usa a educação para escravizar e da educação que tem poder para decepar a mão que escraviza... Parece meio enrolado o negócio, mas você vai entender...

O que você precisa compreender é que nós estamos imersos em um mundo de desigualdades, pobreza e miséria. Nesse mundo de desigualdade, pobreza e miséria existem grupos dominantes poderosos que enriquecem dia após dia. De um lado você tem a maioria da população na pobreza e na miséria. De outro lado você tem grupos dominantes e indivíduos super-ricos. Não há riqueza na pobreza e na miséria, contudo a pobreza e a miséria podem gerar grandes riquezas...Os grupos dominantes atuais sabem e usam isto com grande maestria. Os grupos dominantes atuais usam a pobreza e a miséria da maioria da população como sua principal fonte de riqueza.

Mas quem são os grupos dominantes atuais ? Quem é a tal classe dominante ?

Hoje no Brasil, com dados do IBGE de 1996:

Elite -- Profissionais pós-graduados, empresários e altos administradores. -- 4,9%.

Classe média alta -- Pequenos proprietários, técnicos com especialização e gerentes de grande empresa. -- 7,4%.

Classe média média -- Pequenos fazendeiros, auxiliares de escritório -- e profissionais com pouca especialização. -- 13,3%.

Classe média baixa -- Motoristas, pedreiros, pintores, auxiliares de serviços gerais, mecânicos, etc. -- 26,9%

Pobres -- Vigias, serventes de pedreiros, ambulantes e outros trabalhadores sem qualificação. -- 23,4%.

Muito pobres -- Trabalhadores rurais, bóias-frias, pescadores, peões de fazendas, catadores urbanos,etc. -- 24%.

Esses dados estão descritos em um estudo disponível em:

http://www.ai.com.br/pessoal/indices/CLASSES.HTM

Mas como eles operam isto ? Como conseguem gerar riqueza usando a pobreza e a miséria da maioria da população ? A resposta é simples: mão-de-obra barata. E aqui entra uma idéia interessante que aparece no filme Matrix. No filme Matrix as pessoas eram cultivadas para gerar energia. Ficavam inerte dentro de um recipiente gerando energia para as máquinas. No mundo atual as pessoas também são cultivadas para gerar energia. E sua energia é usada, nas fábricas, indústrias e comércio, para produzir produtos e serviços que são vendidos no mercado. A energia vira produto e serviços. Ao menos no filme Matrix a pessoa não precisava fazer nada, ficava inerte gerando energia. Na atualidade a pessoa tem que se virar, tem que encontrar um local, um emprego, que aceite a sua energia e lhe pague uns trocados em troca. A realidade é bem mais perversa e sangrenta do que o filme Matrix.

A riqueza é gerada pela energia dos pobres e miseráveis que trabalham muito para ganhar pouco ou quase nada. O lucro daquilo que eles produzem é embolsado pelos grupos dominantes e pelos super-ricos.

Neste contexto entra em cena um outro ponto fundamental. O excedente de produção tem que ser vendido para pessoas que tenham renda. Um país de pobres e miseráveis tem pouca renda disponível para aquisição, logo, devem buscar outros mercados. Aqui entra o comércio internacional como um elemento que faz a cadeia de exclusão e exploração continuar girando e gerando riquezas. Sem o comércio internacional o sistema quebraria, pois sem consumidores não há produção. E só há consumidores onde há renda. Um país com um grande número de pobres e miseráveis tem pouca renda e poucos consumidores. Pobre não compra TV de plasma, geladeira com internet, carro da moda, etc.

Olhe para a construção civil. Quem mais trabalha e quem realmente constrói os prédios são os pedreiros e os serventes de pedreiro. Porém, quem realmente lucra e ganha com essas construções são as grandes construtoras e os investidores. Olhe para a indústria canavieira. Quem mais trabalha e quem movimenta as usinas são os trabalhadores rurais, cortadores de cana, bóias-frias. Porém, quem realmente lucra e ganha com a cana são os usineiros. Olhe para a indústria de suco de laranja, fábrica de automóveis, indústria têxtil, etc. Olhe para o comércio. Quem trabalha realmente ganha muito pouco. Quem mais lucra com o comércio são os comerciantes capitalistas.

O salário que esses trabalhadores ganham não dá para nada. Não lhes permite escapar da escravidão e crescer na vida. Estes indivíduos estão presos dentro da exclusão e da exploração e não conseguem se libertar, pois o sistema os mantém cativos. São pobres e miseráveis e continuarão a ser pobres e miseráveis, apesar do emprego que possuem... São pilhas que produzem energia para o sistema. Energia que vira produtos e serviços que serão vendidos no mercado internacional. Quem mora na favela e ganha um salário mínimo não possui nenhuma chance de sair da favela...Quem mora no campo e ganha um salário mínimo não possui nenhuma chance de escapar do circulo de pobreza e miséria...

Além disso, o sistema não tem interesse em acabar, ou reduzir ao mínimo, as desigualdades, a pobreza e a miséria, pois se isso for feito não haverá mais mão-de-obra barata e nem reserva de escravos para movimentar as indústrias. Os grupos dominantes ganham, e muito, com as desigualdades, com a pobreza e com a miséria. Basta ver que são grupos dominantes que se enriquecem cada vez mais, mesmo estando inserido em um mundo de desigualdades, pobreza e miséria.

Quem opera este sistema perverso ? A resposta aparece na tabela dos grupos dominantes. Quem ganha com as desigualdades, com a pobreza e com a miséria no Brasil é a elite e a classe média alta. São estes indivíduos os inimigos da coletividade e do Povo Brasileiro. Eles é que alimentam e perpetuam esse sistema de exclusão e exploração. Eles é que impedem a implantação de políticas públicas que ocasionem transformação social relevante. Eles ganham com a desgraça do Brasil e do Brasileiros. Não só ganham como financiam a desgraça do Brasil e dos Brasileiros.

Elite -- Profissionais pós-graduados, empresários e altos administradores. -- 4,9%.

Classe média alta -- Pequenos proprietários, técnicos com especialização e gerentes de grande empresa. -- 7,4%.

Nesta tabela onde está as Universidades Públicas ? Onde está a burocracia ? A resposta é só uma: na elite. Por isso, meu caro, não espere que uma Universidade Pública faça alguma revolução ou transformação social relevante, pois os professores das Universidades Públicas pertencem à elite. Eles ganham com as desigualdades, com a pobreza e com a miséria da população e do Povo Brasileiro... Eles enriquecem, mesmo estando inseridos em um mar de desigualdades, pobreza e miséria.

Eu vejo isso claramente e compreendo, por exemplo, porque a USP aprova e apóia projetos de banco para pequeno número de alunos da classe média, mas não aprova e nem apóia projetos de grande relevância e repercussão social que beneficia a coletividade como um todo. A USP não quer política de cotas, alguns professores da USP não querem o Projeto OCW-USP. Não querem porque esta Universidade é um centro de formação dos herdeiros da classe dominante, eles são classe dominante, são elite e a elite não quer mudança social, quer que o status quo se mantenha, que as coisas continuem como estão. Eles ganham com as desigualdades, com a pobreza e com a miséria da coletividade. Eles ganham com a escravidão.

Portanto, a educação que liberta não virá dessa mão que escraviza. A mão que escraviza não quer uma educação que liberta os seus escravos. Logo, as Universidades Públicas não buscam resolver os problemas sociais ou desenvolver políticas sérias que acabem com as desigualdades, com a pobreza e com a miséria. Inclusive é comum ouvirmos professores falando que não é função da Universidade resolver problemas sociais. Dizem que é função da Universidade educar e formar mão-de-obra especializada. Porém, não dizem que a Universidade ministra, para aqueles que conseguem romper a barreira econômica, uma educação que ocasiona escravidão mental; assim como forma os herdeiros dos grupos dominantes, ou seja, perpetua a elite da exclusão e da exploração. A Universidade atual domestica as mentes rebeldes e tenta conformar os inconformados, fazendo-os aceitar como natural e impossível de mudança a realidade perversa que nos assola.

A revolução tem que ser construída nas favelas e nas periferias, pois a mão que escraviza não produz uma educação que liberta. Os oprimidos, os excluídos e os explorados terão que se levantar para tomar o sistema. Os herdeiros dos grupos dominantes e os próprios grupos, apesar do discurso social, não querem nenhuma mudança social relevante. Por isso, desenvolvem planos e idéias que mudam tudo sem mudar nada. Esta é uma das especialidades da USP, fazer planos e projetos que muda tudo sem mudar nada. Ao invés de adotarem as cotas na Universidade, criaram mais um cursinho pré-vestibular...

Mas qual é a educação que liberta ? Qual é a educação que nos livra e nos salva da mão que escraviza ? Certamente, não é a educação atual, pois a educação que temos hoje reproduz e perpetua as desigualdades. É uma educação que usa as desigualdades econômicas para promover desigualdades intelectuais. Os ricos são doutores, pós-doutores, etc... Os pobres chegam no máximo até a oitava série. As Universidades particulares são caríssimas. Logo, excluem os pobres. As Universidades Públicas usam provas vestibulares dificílimas para que os alunos que queiram ser aprovados tenham que fazer cursinhos caríssimos. Logo, as Universidades Públicas também excluem os pobres. Excluem na obrigatoriedade indireta de fazer cursinho caros para ingresso... Este é o mecanismo de poder dos grupos dominantes. Um mecanismo inserido na instituição Universidade Pública para dominar, controlar e perpetuar a elite no poder.

O primeiro mecanismo da elite é impedir que os pobres e miseráveis estudem. E se, apesar da exclusão e exploração, o indivíduo consegue terminar o segundo grau, o mecanismo seguinte, implantado pela elite, é impedir que ele entre na Universidade. E se ele entra, o próximo passo é impedir que ele termine o curso...Certamente, não há uma única pessoa operando isto. Há um sistema por trás disto. Um sistema que foi construído ao longo do tempo e que foi enraizando na nossa cultura. Isso parece natural... Os vestibulares parecem coisas naturais... Os cursinhos parecem coisas naturais... Mas não são. São mecanismos criados para dar oportunidades e estudos para quem tem poder econômico e, simultaneamente, excluir das Universidades Públicas quem não tem poder econômico.

Quem tem poder econômico protege o poder econômico e busca perpetuar os mecanismos de opressão, exclusão e exploração. Quem não tem poder econômico quer mudar tudo isto. Quer quebrar o sistema e instaurar uma nova ordem... Por isso, o poder econômico tenta impedir o acesso das classes baixas à Universidade, à educação e ao cerne do sistema. O vestibular é um mecanismo seletivo econômico. Ele é feito para impedir o acesso às Universidades Públicas dos alunos das classes baixas...Somente quem paga cursinho caro entra nos cursos importantes. Certamente, existem exceções, mas são pontos fora da reta...

Portanto, a educação que liberta tem que ser gratuita e aberta a todos, sem nenhum tipo de barreira econômica excluindo, oprimindo e explorando. A educação que liberta é democrática, é acessível, é transformadora. O conhecimento tem que ser democratizado e socializado. Eu vejo na tecnologia atual uma grande possibilidade de se implantar, como política pública, a educação que liberta. Eu chamo esta educação qe liberta de Ensino Público Gratuito via Internet. E este sistema de ensino público via internet começa com um projeto OCW, ou seja, o Projeto OCW é o primeiro passo para se estabelecer um sistema de ensino público via internet.

Abaixo a propriedade privada

Alain Bihr -- François Chesnais---- Le Monde Diplomatique ---- 11/2006

A sacralização da propriedade começou quando colocou-se no mesmo plano os bens de uso pessoal, dos quais os indivíduos desfrutam sozinhos ou com sua família, e os meios necessários à produção, que resultam em geral, da apropriação privada de todo ou de parte de um trabalho social.

 

Na França, de 1997 a 2002, o governo socialista de Lionel Jospin permitiu o mais amplo movimento de privatização de capitais desde que o neoliberalismo tornou-se a religião dos governos ocidentais. O fato de esse movimento ter sido colocado em prática pela “esquerda plural”, outrora paladina das nacionalizações e dos serviços públicos, demonstra como a propriedade privada tornou-se uma espécie de tabu, cuja legitimidade quase ninguém ousa contestar. E, no entanto...

Desde o século XVIII, o direito de propriedade constitui um dos pivôs do pensamento político e jurídico ocidental. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789, em seu artigo 17, instaurou-o como “um direito inviolável e sagrado (do qual) ninguém pode ser privado, exceto se a necessidade pública legalmente constatada o exigir, de forma evidente, e com a condição de uma justa e prévia indenização”. Formulação moderada, uma vez que impõe limites a esse direito “inviolável”, efetivamente imposto em alguns momentos da história da França. Em compensação, a Constituição dos Estados Unidos, da mesma maneira que outros códigos jurídicos nacionais, postula que a propriedade de bens não deve ter, salvo estritas questões de ordem pública, nenhum entrave relativo ao uso (usus), à valorização (fructus) e à alienação (abusus).

 

A grande contradição do capitalismo

 

A sacralização da propriedade individual, à custa das diferentes formas da propriedade pública e da propriedade social1, baseia-se em várias confusões grosseiras. Em primeiro lugar, sobre a natureza do bem possuído: na verdade, colocam-se, ao mesmo tempo, no mesmo plano, os bens de uso pessoal, dos quais os indivíduos desfrutam sozinhos ou com sua família, e os meios necessários à produção (terra, imóveis, infra-estruturas produtivas, fábricas e estabelecimentos comerciais etc.). A segunda confusão, muito mais grave, baseia-se no próprio conteúdo da relação de propriedade. Colocam-se, então, no mesmo nível, a posse de um bem que, de uma maneira ou de outra, provém do trabalho pessoal de seu proprietário, e a posse de um bem que resulta da apropriação privada do todo ou de parte de um trabalho social.
Um dos objetivos e principais resultados da desregulamentação e da privatização dos últimos 20 anos foi aumentar a esfera da propriedade privada.

No final dessa dupla confusão, a posse de uma habitação por um indivíduo, fruto de seu trabalho pessoal, é confundida com a propriedade privada de meios de produção (de empresas), que decorre da acumulação dos frutos do trabalho de dezenas e até de centenas de milhares de assalariados, durante décadas. A forma capitalista de propriedade, sob a qual se realiza a dominação e a exploração do trabalho assalariado, pode então apresentar-se como a condição e o fruto da liberdade pessoal.

Confusões como essas, na verdade, mascaram a grande contradição que se encontra no cerne dessa apropriação privada do trabalho socializado, e que constitui a própria essência da propriedade capitalista. Contradição que não pára de se reproduzir em uma dimensão cada vez maior. O capital socializa o processo de trabalho, organizando a cooperação dos trabalhadores em ampla escala, dividindo as tarefas produtivas entre eles, aumentando constantemente a parte do trabalho morto (matérias-primas e meios de trabalho) em relação ao trabalho vivo (salários, contribuições sociais...). Dessa maneira, qualquer mercadoria – da lata de ervilhas até a refinaria monitorada por computador – é a materialização e a soma de inúmeros atos produtivos, distribuídos por todo o espaço mundial e por todo o tempo histórico. É esse trabalho socializado que o capital encerra na propriedade privada, de modo que os resultados de uma imensa acumulação de operações produtivas sejam apropriadas por poucos indivíduos ou grupos sociais limitados.

 

A “contra-revolução conservadora”

 

Um dos objetivos e dos principais resultados do processo de desregulamentação e de privatização das duas últimas décadas foi aumentar consideravelmente a esfera da propriedade privada. Nesse contexto, a questão da forma da propriedade dos meios de produção, de comunicação e de troca, que curiosamente se tornou uma questão tabu para os dirigentes sindicais e políticos, assim como para a maioria dos intelectuais de esquerda, não o é para a burguesia mundial: para esta, a propriedade tem uma importância estratégica da qual ela não faz mistério2.

Há 20 anos, portanto, na esfera do capital privado, assistimos a uma profunda transformação da própria definição da propriedade, dos “direitos” que lhe dizem respeito, os dos acionistas, que se tornaram todo-poderosos, e das esperanças que estes podem alimentar “legitimamente” em termos da rentabilidade de suas partes da propriedade. A “contra-revolução conservadora” baseia-se na revitalização contemporânea dessa instituição muito particular do capitalismo que é o mercado de capitais (a Bolsa). Essa instituição garante aos acionistas, exceto em épocas de crises financeiras graves, a “liquidez” de suas ações, ou seja, a possibilidade de se desfazer à vontade dessa fração de sua propriedade que tomou a forma de cotas de uma ou outra empresa. Os mercados de ações, em poucos anos, passaram do status de mercados em que se negociam títulos para o de mercados em que as empresas são inteiramente negociadas, trocadas, aglomeradas ou desmanteladas3.

 

A privatização das conquistas sociais

 

A área mais recente da ofensiva é a da apropriação dos conhecimentos científicos, dos mecanismos de produção e reprodução biológica e da biodiversidade.

Há apenas dez anos, era de bom tom ironizar sobre os “jogos de lego” dos ministérios da Indústria. Eles foram ultrapassados – e muito – pelas megafusões dos mercados de ações, gigantescas tanto por suas dimensões e seu poder monopolista, quanto por seus desperdícios. Basta citar a Vivendi e a France Télécom. Sendo a propriedade dos títulos “líquida”, é preciso que o capital físico (os meios de produção) e, sobretudo, os assalariados, tenham a mesma “liquidez”, a mesma flexibilidade, com a possibilidade de serem descartados, de serem “liquidados” no sentido comum da palavra. Assim, invocando as “exigências dos mercados”, as direções dos grupos irão decidir sobre a reestruturação ou o fechamento de dezenas de estabelecimentos industriais e, dessa forma, sobre a demissão de centenas de milhares de trabalhadores, com o único objetivo de criar “valor para o acionista” (e, a partir do início da bancarrota, preservar esse valor).

Paralelamente, o capital financeiro multiplica as pressões para se apoderar das formas socializadas da relação salarial: os vários sistemas de proteção social edificados durante décadas. Por exemplo, a transformação dos regimes de aposentadoria por distribuição em benefício dos fundos de pensão ou os incentivos fiscais para desenvolver fórmulas individuais de economia salarial. Os seguros privados, cuja máxima é “a cada um de acordo com seus meios (de contribuição)”, buscam apropriar-se de parte da riqueza social, produto do trabalho, até o presente mais ou menos redistribuído sob a forma de fundos públicos ou sociais.
A vontade da apropriação “total”.

Em escala internacional, o Acordo Geral sobre o Comércio dos Serviços (AGCS), no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), visa, sob o pretexto de liberdade, a transformar serviços públicos (principalmente de ensino e de saúde) em mercados. Estes somente serão acessíveis a quem tiver os meios monetários, como já acontece, em parte, nos Estados Unidos.

A área mais recente da ofensiva é a da apropriação privada dos conhecimentos científicos, assim como dessa forma particular de patrimônio comum da humanidade que são os mecanismos de produção e de reprodução biológica e a biodiversidade. Atualmente, o capital quer açambarcar todas as condições materiais e intelectuais do processo de produção, obra do trabalho histórico, social da humanidade.

Essa vontade de apropriação privada vem do lugar ocupado pela ciência e pela tecnologia (o conhecimento como “força produtiva direta”) na concorrência, e da busca permanente do capital de novos campos de valorização, a fim de rechaçar o momento em que suas crises eclodem. Mas ela corresponde também a uma das tendências mais profundas do capitalismo, que o distingue de todas as formas de organização social que o precederam: o movimento que o empurra para uma apropriação “total” das condições da atividade social4.

 

O patenteamento sistemático de seres vivos

 

Cada vez que um grupo farmacêutico efetiva sua patente de um medicamento, ele se apropria dos conhecimentos científicos produzidos socialmente e financiados publicamente.

Em nome da “proteção da propriedade industrial”, por exemplo, os grandes grupos farmacêuticos ocidentais procuraram impor, aos países pobres, preços exorbitantes de medicamentos, principalmente aqueles destinados a lutar contra a Aids. E se, finalmente, tiveram de desistir – pelo menos, momentaneamente – devido à determinação de alguns governos (África do Sul, Brasil, Índia) de colocar no mercado os genéricos desses medicamentos, a “proteção industrial” e o regime de patentes não foram colocados em questão, assim como sua expansão constante5.

Na verdade, cada vez que um grupo farmacêutico efetiva sua patente de um medicamento, ele se apropria dos conhecimentos científicos produzidos socialmente e financiados publicamente. Pois o produto patenteado é sempre conseqüência de uma longa acumulação geral de conhecimentos, que independe do grupo que o patenteou e, ao mesmo tempo, resultado do trabalho preciso de pesquisadores que, muitas vezes, trabalham nos laboratórios públicos e universitários de um ou de vários países. A patente organiza e defende juridicamente esse processo de expropriação de pesquisadores e dos países que os financiam. Ela permite, subseqüentemente, que os grupos oligopolistas transformem o saber social, assim privatizado, em mecanismo de extração de fluxo de rendas e em instrumento de dominação social e política6.

Ainda mais ilegítimo parece o patentear sistemático dos seres vivos em que se lançaram os grupos agroquímicos e farmacêuticos. De que se trata, senão de uma apropriação privada dos mecanismos de produção e de reprodução biológica que são patrimônio da humanidade? A Unesco protege, com toda razão, cidades e lugares da devastação da privatização. Deveria o patrimônio biológico ser tratado de outra maneira? Paralelamente, o desenvolvimento dos organismos geneticamente modificados (OGM), a substituição mais ou menos forçada que estes fazem das plantas tradicionais na agricultura, traduz um processo análogo, aperfeiçoando a expropriação dos produtores7.

 

Princípios em discussão

 

A propriedade privada e os direitos que ela confere estão no cerne da crise ecológica, conseqüência do produtivismo cego ou, pelo menos, míope, do qual a busca do lucro é portadora.

Enfim, a propriedade privada e os direitos que ela confere estão no cerne da crise ecológica, conseqüência do produtivismo cego ou, pelo menos, míope, do qual a busca do lucro é portadora e que a dominação dos investidores financeiros agrava ainda mais. No entanto, as únicas soluções preconizadas são expansões ou aplicações da apropriação privada. Dessa maneira, a Convenção do Rio (1992), geralmente apresentada como uma etapa importante na proteção da ecologia do planeta, reforça os direitos do capital sobre a natureza. Sem dúvida, ela reconhece que os camponeses e as comunidades utilizaram e conservaram os recursos genéticos desde tempos imemoriais, mas não lhes dá nenhum direito de gestão ou de propriedade desses recursos.

Considerando as múltiplas facetas da questão da propriedade, o movimento de oposição à contra-reforma neoliberal poderia, como primeiro passo, lançar uma discussão coletiva, a partir de alguns princípios.

O planeta e o conjunto de suas riquezas – sejam minerais, vegetais ou animais – deveriam ser considerados patrimônio comum e indivisível de toda a humanidade, presente e futura. Qualquer apropriação privada dessas riquezas passa a ser ilegítima. No máximo, pode-se reconhecer a toda ou a parte da humanidade (indivíduo ou coletividade) um direito de uso de uma parte dessas riquezas, com a condição de que este uso não seja prejudicial ao restante da humanidade, no presente ou no futuro.

 

A apropriação ilegítima do social

 

Em segundo lugar, a propriedade privada de meios sociais de produção (meios produzidos por um trabalho socializado e que podem ser colocados em ação somente por um trabalho socializado) deveria dar lugar a uma concepção completamente diferente. A propriedade desses meios deveria caber à sociedade (potencialmente, à humanidade como um todo). Um primeiro passo consistiria em confirmar a superioridade do direito dos trabalhadores sobre o dos proprietários – acionistas e administradores – principalmente no que diz respeito às decisões que afetam diretamente suas condições de trabalho e de existência. Mas é preciso também defender o princípio de que as questões relativas à produção e ao uso desses meios – os locais de sua implantação, as opções tecnológicas para seu desenvolvimento – deverão resultar da decisão de toda a sociedade.

É claro que a apropriação privada dos equipamentos coletivos, dos serviços públicos, dos fundos socializados de proteção social deveria ser considerada fundamentalmente ilegítima. Da mesma maneira, qualquer indivíduo tem direito a uma parte da riqueza produzida, resultado de um trabalho vivo amplamente socializado, e de um trabalho anterior acumulado sob a forma de conhecimentos científicos e de meios de produção, que são produto de toda a humanidade anterior.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

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1 - Ler, com abordagens diferentes no que diz respeito ao conteúdo exato dos termos, de Yves Salesse, Réformes et révolution: propositions pour une gauche de gauche, ed. Contre-feux, Agone, Marselha, 2001; de Robert Castel, em seu diálogo com Claudine Haroche, Propriété privée, propriété sociale, propriété de soi, ed. Fayard, Paris, 2001; e de Tony Andréani et alii, L’appropriation sociale, Les Notes de la Fondation Copernic, Editions Syllepse, Paris, 2002.
2 - Ler, de François Chesnais, “Travail socialisé et appropriation sociale: un enjeu international”, A l’Encontre, n°10, dezembro de 2002, Lausanne.
3 - Ler, de André Orléan, Le pouvoir de la finance, ed. Odile Jacob, Paris, 1999, capítulo IV.
4 - Ler, de Alain Bihr, La reproduction du capital: prolégomènes à une théorie générale du capitalisme, Cahiers libres, Editions Page deux, Lausanne, 2001.
5 - Ler, de Philippe Demenet,“Ces profiteurs du sida” e de Philippe Rivière, “Offensive sur le prix des médicaments”, Le Monde diplomatique, fevereiro de 2002.
6 - Ler “Les droits de propriété industrielle: nouveaux domaines, nouveaux enjeux”, número especial da Revue d’Economie Industrielle, coordenada por Benjamin Coriat, n° 99, 2° trimestre de 2002.
7 - Ler, de Jean-Pierre Berlan (coord.) La guerre au vivant: OGM et mystifications scientifiques, ed. Contre-feux, Agone, Marselha, 2000.

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