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Teoria do Caos |
Cesar Boschetti - Brasil
"Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia." (Machado de Assis, Várias Histórias, p. 3)
Antes que você se assuste com o título apocalíptico, vamos falar sobre as borboletas. Você sabia, por exemplo, que o bater de asas de uma borboleta na China pode provocar um furacão no Caribe ? Por favor, não se irrite nem entre em pânico! Isto não é uma piada nem mau presságio. É apenas Ciência. O fenômeno faz parte de uma conspiração da Natureza chamada "caos".
A moderna "Teoria do Caos", estudada a partir dos anos 60, vem se mostrando cada vez mais interessante e aplicável à diversos campos do conhecimento. Ela vem permitindo compreender melhor o comportamento de sistemas complexos como a Sociedade, a Economia e Informação globalizadas. O "efeito borboleta", como ficou conhecido entre os especialistas, é um clássico exemplo ilustrativo do problema.
Em termos simples, significa que em sistemas complexos como o clima, envolvendo um número muito grande de variáveis sensíveis, qualquer perturbação, por menor que seja em uma das variáveis, pode ter desdobramentos e conseqüências completamente imprevisíveis e catastróficas. É justamente este aspecto que tem despertado grande interesse. É possível que a partir da compreensão dessa dinâmica possamos ter um maior controle ou previsibilidade sobre esses sistemas.
É fácil percebermos sua utilidade desde o Meio Ambiente até a Economia e a Sociedade. A Economia globalizada e informatizada é um Sistema Complexo e sujeito ao caos. Só que agora não estamos falando do Juízo Final. Caos agora é meta de futuro, é, pode-se dizer, a ferramenta do próprio futuro. Mas vamos com calma, não se entusiasme demais. Há ainda muito por se fazer neste campo recém-nascido. Os magos terão seu emprego assegurado por muito tempo ainda.
O número de variáveis interdependentes em sistemas complexos é estupidamente grande e, com certeza, conhecemos apenas uma pequena parte delas. Apesar disto, há bons motivos para otimismo. A Ciência, particularmente a Física Teórica e a Matemática, têm feito grandes progressos na área. Os famosos fractais, que nada mais são que representações gráficas de equações com variáveis sensíveis às condições iniciais, já proporcionaram enormes avanços na computação gráfica.
Agora que desmistificamos um pouco o assunto vamos procurar entender melhor os conceitos e possibilidades desse Império do Caos.
A palavra "Caos" remonta aos tempos da antiga Grécia.. Na Mitologia grega, Caos era o Pré-Universo, o estado primordial de Desordem ou Vazio. O Antes do próprio Tempo. Segundo a crença, este Caos evoluiu para um gigantesco "ovo", a partir do qual surgiram o Céu, a Terra e até os Deuses. Vale notarmos uma certa semelhança desse conceito com o "Big Bang", uma das teorias científicas de maior aceitação sobre a origem do Universo.
De uma forma mais rigorosa, em Física e Matemática, caos expressa o comportamento, aparentemente, aleatório e imprevisível de sistemas governados por leis conhecidas. Talvez fosse mais apropriado falarmos em "Caos Determinístico", o que entretanto, sugere um paradoxo, pois associa duas idéias antagônicas. Mas vamos com calma. Vamos tentar colocar um pouco de ordem nesse caos de idéias. Vamos em primeiro lugar procurar entender um pouco melhor os conceitos.
A idéia de caos traz de imediato a sensação de algo completamente aleatório e imprevisível, o que em geral nos assusta. Isto ocorre, por exemplo, com o movimento de uma molécula em um gás. Se a Química não lhe for muito simpática, você pode perfeitamente pensar na trajetória de uma borboleta em vôo. – Olha ela aí novamente! - Outro exemplo de evento aleatório e imprevisível é o processo eleitoral. É claro que aqui devemos abstrair a possível influência das pesquisas, mas mesmo com estas, não raro, os resultados surpreendem. Em casos como esses, o pensamento convencional admitia que a aleatoriedade era mais aparente que real, surgindo da nossa ignorância sobre os vários agentes em jogo. Em outras palavras, acreditava-se que o mundo era imprevisível porque era complicado.
Por outro lado, a noção de determinismo associada ao movimento de um pêndulo, órbita de um planeta ou a balística de um foguete, por exemplo, sugere previsibilidade, isto é, fornecidas as condições iniciais do objeto é possível prever sua trajetória e comportamento futuros. Esta noção de determinismo é aceita desde os tempos de Isaac Newton que descobriu as leis do movimento. O determinismo Newtoniano exemplifica bem o sucesso da Ciência em explicar, de modo simples, o que antes parecia complicado.
A esta altura você deve estar pensando que o "Caos Determinístico" parece realmente paradoxal, envolvendo conceitos completamente incompatíveis. Ocorre que nas últimas décadas, diversos sistemas físicos, apesar de governados por leis muito bem estabelecidas, mostraram comportamento imprevisível. O elemento comum nesses sistemas é um alto grau de sensibilidade às condições iniciais.
O exemplo mais conhecido deve-se ao meteorologista Edward Lorenz. Ele descobriu, no início dos anos 60, que o modelo termodinâmico clássico, bem conhecido e previsível de convecção de calor (você com certeza já ouviu dizer que o ar quente sobe e o frio desce. Este processo chama-se convecção), apresenta uma imprevisibilidade intrínseca. Lorenz deu à esta circunstância o nome de "efeito borboleta", sugerindo que a pequena agitação do ar pelas asas do inseto pode, devido à imprevisibilidade e sensibilidade do sistema, vir a ser estupidamente amplificada por uma espécie de reação em cadeia.
Percebe-se agora que a expressão "Caos Determinístico" começa a fazer algum sentido, pois é a sensibilidade do sistema às condições iniciais que determina o seu comportamento caótico. A teoria do caos, embora ainda jovem, permite-nos antever grandes progressos futuros nas mais diversas áreas.
O mundo dos negócios, por exemplo, sofreu profundas transformações nas últimas décadas. Hoje, todos os Países estão interligados via Internet, formando um único Mercado Global governado por transferências instantâneas de capital. Pequenas oscilações localizadas, podem se propagar rapidamente pelos meios eletrônicos e causar sérias perturbações na Economia Mundial.
As Empresas modernas de Alta Tecnologia são radicalmente diferentes das Empresas tradicionais. Estão sujeitas à uma dinâmica de inovações tecnológicas que se proliferam rapidamente, tornando a idéia convencional de uma liderança sólida e sem competidores, um tanto quanto vaga. Turbulência parece estar na ordem do dia.
Sob estas circunstâncias, a Teoria do Caos parece ser a ferramenta mais adequada para lidar com a complexidade do Mundo atual. Na realidade o caos coloca em xeque as noções tradicionais de equilíbrio econômico. Isto é uma conseqüência do processo de realimentação proporcionado pelos novos meios de comunicação. A supressão das barreiras comerciais entre os Países foi inicialmente admitida como um meio para beneficiar a todos. Entretanto, este conceito é questionável, pois não são apenas dois Países a interagir, mas todos os Países e indivíduos do Mundo.
Este sistema altamente complexo e dinâmico, não necessariamente, produzirá equilíbrio. Pode parecer irônico, mas o plano mais bem intencionado e elaborado objetivando o equilíbrio, pode perfeitamente conduzir ao cenário oposto, isto é, ao caos. A sensibilidade às condições iniciais pode também significar a vida ou morte de um produto.
Um bom exemplo neste sentido é o dos videocassetes. A SONY, com o seu sistema Betamax, saiu na frente da pequena JVC com seu formato alternativo VHS. Entretanto em pouco tempo o formato VHS simplesmente tomou conta do mercado. As teorias econômicas tradicionais não conseguiram explicar satisfatoriamente o que aconteceu. O sistema VHS não foi uma expansão do mercado como era de se esperar, foi uma tomada completa do mesmo.
Segundo os teóricos do caos, foi a sensibilidade inicial do mercado que comandou o processo. Os dois sistemas entraram em cena quase ao mesmo tempo e com preços semelhantes. Os atributos de qualidade de imagem do Betamax eram até superiores aos do VHS. Ocorre que o sistema VHS possibilitava gravações mais longas, e o mercado estava mais sensível à este aspecto.
Isto mostra ainda que o empresário e administrador do futuro terão que conviver com o caos e conscientizar-se de sua dinâmica. Acima de tudo, deve-se ter em mente que "Caos" é um poder ao mesmo tempo criador e destruidor e seu estudo precisa ser visto com otimismo equilibrado.
A Teoria do Caos é uma ferramenta poderosa, mas não é a única. Apesar de alguns progressos já feitos na identificação do problema, há ainda um longo e caótico caminho a percorrer. Contudo, os fatores de risco, antes debitados exclusivamente na conta do acaso, agora possuem uma identidade e uma Teoria. Mesmo que jovem, esta teoria é sem dúvida um bom começo.