O IBGE
divulgou neste mês, na Síntese dos Indicadores Sociais, um dado
inédito que ajuda a entender o perfil do estudante que consegue
chegar na universidade pública.
Pela primeira
vez, o instituto pesquisou o perfil socioeconômico do universitário
de instituições públicas.
O resultado
confirma o que já se sabia: a maioria dos estudantes (60%) dessas
instituições pertencem à camada dos 20% mais ricos da população
brasileira.
Entre os 20%
mais pobres, apenas 3,4% estão representados nas universidades
públicas.
Esses números
não deixam dúvida quanto ao caráter elitista da universidade
pública. No entanto, sua análise fora de contexto pode levar a
conclusões simplistas.
Infelizmente,
o IBGE não fez o cálculo do perfil socioeconômico dos alunos das
universidades privadas. A pergunta que deveríamos nos fazer é: a
universidade particular é mais ou menos elitista do que a pública?
Os números do
IBGE não permitem obter essa resposta. No entanto, uma pesquisa já
citada muitas vezes nesta coluna, do sociólogo Simon Schwartzman,
mostra que o ensino superior como um todo é elitista.
Schwartzman
fez o mesmo cálculo com base na Pnad de 1999, quando não era
possível separar a rede pública da particular nas análises dos
resultados. Sabemos, no entanto, que 70% dos estudantes do ensino
superior brasileiro estão na rede privada.
Sabemos
também, a partir dos estudos de Schwartzman, que os estudantes que
pertenciam aos 20% mais ricos ocupavam 71% das vagas de todo o
ensino superior em 1999.
Esse dado não
deixa dúvida: não é só a universidade pública que é elitista. Esse é
um problema de todo o sistema, e não apenas das instituições
mantidas com o nosso dinheiro.
Os dados do
IBGE também mostram outra faceta desse elitismo. É comum ouvir o
argumento de que o problema do elitismo nas nossas universidades não
é delas, mas sim do ensino médio. Em outras palavras, as
universidades - públicas ou particulares - receberiam os alunos mais
ricos porque o filtro social aconteceria mais cedo, no ensino médio,
porque muitos estudantes pobres não conseguiriam completar o ensino
médio, condição fundamental para entrar na universidade.
O IBGE mostra
que essa afirmação é uma meia verdade.
Do ensino
fundamental para o ensino médio, é inegável que existe um filtro
social e que muitos estudantes pobres ficam pelo caminho. Na faixa
etária de 7 a 14 anos, todas as faixas de renda pesquisadas, da mais
pobre à mais rica, a taxa de freqüência escolar é superior a 90%.
Dos 15 aos 17,
essa taxa já começa a variar. Entre os 20% mais pobres, 71% estudam.
Entre os 20% mais ricos, 94% estudam. Isso mostra que os pobres
começam a abandonar o estudo mais cedo, mas nenhum filtro é tão
elitista quanto o dos vestibulares.
É na passagem
do ensino médio para o ensino superior que as estatísticas mostram
que ocorre a maior elitização. Provavelmente, em qualquer lugar do
mundo as universidades acabam atraindo os alunos mais ricos. No caso
do Brasil, no entanto, os dados deixam claro que essa elitização é
mais perversa.
É por isso que
é tão importante discutir sobre temas como cotas, aumento de vagas
nas universidades públicas, bolsas de estudo, financiamento, cursos
para carentes ou qualquer outra proposta com o objetivo de aumentar
o acesso dos pobres à universidade, incluindo a mais do que óbvia
necessidade de melhorar a qualidade do ensino dado aos mais pobres.